El cuaderno de Tomy, 2020
Carlos Sorín
Argentina
Por que a escolha?
Médicos, filósofos e escritores têm interpretado a doença como metáfora, campo semântico e território moral. Susan Sontag observou com clareza: o câncer gera discursos. O Caderno de Tomy avança na direção oposta e desarma esse dispositivo cultural por meio da sátira. Onde a cultura espera relatos edificantes, María Vázquez responde com desenvoltura à retórica da “doença longa e penosa” e afirma, sem rodeios, a morte como parte da vida. O humor, a partir dessa irreverência, permite dizer o que de outra forma seria impronunciável.
O Caderno de Tomy nasce da história de María Vázquez, uma arquiteta argentina diagnosticada com câncer de ovário, que morreu em 2015 após seu caso se tornar uma sensação na mídia do país. À medida que seu corpo se deteriorava, María escrevia para o filho pequeno e para um público cada vez mais comovido que passou a segui-la. María falava da doença com uma ironia mordaz. Seu relato nas redes sociais — uma espécie de “show do câncer”, como ela mesma dizia — transformou a dor, o medo e o luto em material de humor.
O filme acompanha esse gesto sem transformá-lo em redenção. María – incisiva até o fim – evita a grandiloquência e direciona a atenção para o cotidiano e para a força dos relacionamentos. As pessoas que a acompanharam até o fim a descrevem como uma supernova: uma intensidade que, ao se extinguir, deixou tudo iluminado. O filme capta esse resplendor e deixa entrever a possibilidade de atravessar a vida e a morte com um toque de graça.
Ficha técnica
