Never Rarely Sometimes Always, 2020
Eliza Hittman
Estados Unidos
Por que a escolha?
Por dois dias, com suas noites, Autumn e Skylar vagam pela cidade de Nova York arrastando uma mala grande. Nós as vemos descer e subir escadas que as levam sem parar da superfície da estação ao metrô. Nós as vemos caminhar, parar para descansar, checar seus celulares e recomeçar aquela caminhada sem destino e sem sentido, evitando as inclemências da cidade e sempre carregando aquele fardo pesado. Trata-se de esperar que as horas passem, que transcorra o tempo necessário para poder realizar o procedimento em duas etapas que encerrará a gravidez de 18 semanas de Autumn.
Em Nunca Raramente Às vezes Sempre, Eliza Hittman faz aquilo que os grandes cineastas gostam de fazer: com a simplicidade de um gesto, reunir um tema, um ponto de vista, o seu contexto, as suas ligações e as suas derivações em uma única peça. Hittman aborda o aborto legal (limitado pelo consentimento paterno) em um espaço rural e em uma família em que a indolência e o desprezo coexistem com a dureza e a severidade. Trata-se de uma adolescente cuja sexualidade prematura é definida pelo desequilíbrio, pela estigmatização e pela violência. Por isso, esse aborto não veio sozinho. Com traços sutis mas inequívocos, Hittman o enquadra no conservadorismo dos espaços rurais, na violência e na arbitrariedade da masculinidade predominante, na falta de comunicação e na extrema solidão da personagem principal.
Mas, apesar de tudo, o pesado fardo que Autumn arrasta por Nova York é compensado pela presença inalterável e comovente de Skylar, um vínculo que cresce à medida que ela vagueia por uma cidade que, apesar do frio, do tamanho e do anonimato, lhe oferece uma atenção e um cuidado que parecem ser o único gesto caloroso que sua existência já conheceu.
Ficha técnica
