Queendom, 2023
Agniia Galdanova
Estados Unidos / França
Por que a escolha?
Queendom é a terceira exploração documental de Agniia Galdanova que tem como personagem principal Gena Marvin, uma artista e performer queer da pequena - e muito conservadora - cidade de Magadan, na Rússia. Espancamentos, insultos, problemas com a polícia, expulsão de instituições acadêmicas, abandono e maus-tratos são algumas das humilhações a que Gena é submetida diariamente. Sua presença é tão estranha e desconcertante para a sociedade russa que a reação mais frequente que suscita é a violência. O trauma geracional exerce pressão inconsciente sobre todos os habitantes de uma cidade. Anos de docilidade e submissão minam qualquer possível tentativa de romper com o status quo. É melhor manter a cabeça baixa e seguir em frente, não fazer muitas perguntas, não chamar a atenção. Salto alto e maquiagem são para mulheres, explorações com fantasias são desencorajadas e qualquer manifestação de uma identidade de gênero ou preferência sexual que se desvie da heteronorma é punida com a ilegalidade.
Gena pode optar por obedecer a todas essas regras tácitas e explícitas, mas seu espírito indomável é um lembrete constante de que para viver é preciso ter coragem e valentia. Para viver uma vida autêntica e genuína é preciso manter a integridade e não ceder às pressões de uma sociedade devastada pela dor e pela violência. Sua arte incomoda, redefine padrões de beleza, habita as zonas liminares entre drag, performance e ativismo e provoca forte reação em quem observa. Como qualquer obra de arte que coloca um espelho diante da sociedade para mostrar o seu reflexo, a mera presença de Gena questiona todos os pressupostos sobre os quais a sociedade está estruturada. Encarnando uma variedade de personagens bizarros, estranhos e assustadores, Gena borra os limites do gênero ao questionar até mesmo a forma humana. Gena é uma entidade, um significante que se carrega de significado dependendo do contexto e do espectador.
Como uma mosca na parede, Galdanova acompanha Gena no seu dia a dia e também durante e após as suas apresentações. Com um olhar poético e compassivo cria um ambiente propício para que Gena se desdobre e expresse toda a sua gama de emoções. O retrato resultante, repleto de imagens poderosas e comoventes, é profundo, íntimo e sutil.
Ficha técnica
